Bianca não me amava e eu sabia disso. Sabia e escondi o tempo que pude, como pude. Porque mesmo assim, no dia em que ela resolveu ir embora fingi acreditar na única lágrima que escorreu em seu rosto. Ela fazia de conta que sofria, e eu que acreditava em seu sofrimento. Quando me virou as costas o gosto de sua última lágrima ficou empreguinado na minha garganta, não chorei. Talvez também não amasse e até hoje tenho minhas dúvidas. Não se a amava de verdade, mas se realmente sei o que é o amor. Sempre me envolvi em histórias de contos de fadas e adorava seus finais apesar de não acreditar em uma vírgula se quer deles. E por essas e outras, mesmo não sabendo o que é o amor, afirmo: Bianca não me amava.
O fato, irônico que seja é que, Bianca faz uma falta maior do que eu posso suportar. Não pelo amor que não existia, mas pelo comodismo que era nossa relação. Reafirmo que, por talvez realmente não saber o que é amor vejo essa falta como um alerta do meu egoísmo. Bianca era minha coragem, por isso o que me faz chorar as dores depois de ela já ter ido embora não é nossa relação física, porque isso não custa mais do que cem reais em qualquer calçada por aí, é a força e coragem que só ela me passava.
Frente a frente com a loucura e apatia o mundo não parece mais tão belo. Cultivo a rotina e uma monstruosa formalidade, mas essa falta... Ah! Essa falta não cultivo, seria muita coragem de minha parte, coragem que se foi com Bianca, ela que se cultiva em mim. As linhas dos livros de auto-ajuda que ganhei quando ainda acredita no amor de Bianca se misturam com o pessimismo de minhas palavras. Queria acreditar que a vida é perfeita, que decidimos nosso futuro sozinhos, que sou dono de mim mesmo e todos esses blá-blá-blás, mas não. O cara que escreveu isso deve hoje estar com a conta corrente recheada e deve ter alguem que o ame. Eu só acredito no que escrevo, quem sabe um dia também terei a conta racheada depois de publicar um livro de sucesso?! Enquanto esse dia não chega, escrevo tão somente para os dias passarem ouvindo a voz de Bianca ecoar no quarto "Coragem, coragem." E diante disso tudo finjo, como todos vocês que não entendo, que não sinto muito, que não ligo, que realmente não sei o que é o amor, porque o que é real, inúmeras vezes, nos faz mal.
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